Relação campo-teoria
A hibridização e
simultaneamente tensão entre o tradicional e o moderno, o colonial e
pós-colonial, o local e o global, áreas cosmopolitas e as que são influenciadas
pela diáspora trazem a tentativa de um aparato geral da significância da
exposição “Ex África” e em tal pode-se criar uma associação extremamente rica
em relação as obras como “A Identidade
Cultural na Pós-Modernidade” de
Stuart Hall e o artigo sobre Cultura
popular de Petrônio Domingues.

A exposição
expressa como nos últimos anos a África tem se ressignificado vigorosamente,
sobretudo no campo artístico. A busca por uma arte identitária ganha vida nos
polos da música, fotografia, pintura e até mesmo formas diversas de penteados
vieram a ganhar manifestações sólidas no intuito de resgatar raízes culturais
da sociedade africana.
O que o autor
Stuart Hall coloca como culturas tradicionais adquire grande relevância em
relação a determinadas obras expostas, como fotografias que resgatam
vestimentas características de povos africanos. Há um ponto ainda mais
interessante: a mostra exibe em uma de suas sessões, documentos, objetos,
propagandas de comércio escravocrata e outros recursos de representação do
período colonial, particularmente da forma como eram escravizados e suas formas
de resistência.
Tal retomada histórica através da arte remonta a construção do que Hall
chamaria como “identidade das culturas nacionais”, o que melhor o autor
explicita através do pensamento de Hobsbawn como “tradições inventadas” que
seriam narrativas de culturas nacionais das quais constroem identidades que são
colocadas, de modo ambíguo, entre o passado e o futuro. Neste caso a
constituição dessas “narrativas” seriam através das diversas expressões
artísticas expostas de modo entrelaçado entre a marcante historicidade de
sociedades africanas englobadas no contexto escravocrata e as novas
possibilidades de força, ascendência de resistência e de criação duma
identidade como continente muito mais autêntico e empoderado. Afinal, a
formação de identidades nacionais para o sociólogo não seria algo rígido e
impermeável, mas sim formadas e constantemente transformadas no interior de
representações.
Não se pode desconsiderar de modo algum a maneira
como a cultura africana tem tomado doses de fusões globalizantes, sobretudo no
campo musical. A primeira sessão da mostra possibilita o contato direto com
compositores hodiernos do continente, os clips e músicas explicitam claramente
as densas influências externas, o que seria melhor elucidado no que Hall chama
de globalização - integrando e conectando comunidades e
organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo mais
interconectado e assim possibilitando jeitos inovadores de se fazer arte por
exemplo.
Um
pensamento presente no artigo de Petrônio Domingues defini relevantemente essas
combinações vigentes na África, ele diz “a cultura do povo se apresenta sempre,
como um conjunto que reúne, numa colcha de retalho, formas e elementos
culturais de origens diversas”. É notório que esta é uma de tantas tentativas
de se definir cultura, contudo, o autor representa de bom modo através dessa
analogia.
Além de considerar conjuntamente, que
culturas jamais podem existir como uma ilha ou algo isolado fora do circuito de
relações sociais e de poder, o que integra a exposição à termos um olhar de
como o território africano vem empenhando-se para levar ao global seu olhar
singular e abundante de sua própria riqueza social de expressão.
De tal modo, percebe-se abertamente que a
exposição “Ex África” retrata laços inerentes a obra de Hall e profundos
pensamentos do autor quanto ao mundo pós-moderno unidamente a Petrônio
Domingues e suas caracterizações de cultura, moldando assim reflexões mais
arraigadas sobre a percepção que cada obra tenta nos passar.




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